segunda-feira, 6 de abril de 2015

A fascinação pela tecnologia

O que leva o homem a se fascinar pela tecnologia? Por que ele se permite viciar por aparelhos como o smartphone ou players de jogos? O que há por trás desses produtos tecnológicos? São perguntas que compelem à reflexão, tendo em vista que qualquer um de nós pode ser assaltado lenta e silenciosamente por uma compulsão viciante sem se aperceber do fato.
Hórus, Osíris e Ísis, deuses egípcios.
Jung (2014, p. 510) diz que aqueles que adoram ídolos sabem que estes foram feitos pelo homem. No entanto, ainda assim são escolhidos como morada de Deus ou tornados sagrados, vasos da santidade. O mesmo ocorreria na construção de um aparelho, de uma máquina, pois ao fazê-lo se está conferindo um poder criativo e divino a ela. Pode parecer uma atividade mecânica, mas ela pode nos invadir de forma invisível. Agora, que poder divino é esse?
Os aparelhos e máquinas são instrumentos que nos possibilitam alcançar o inalcançável, estender nossos membros ao que antes era não atingível. Podemos fazer coisas que não faríamos só com nosso corpo. Por isso os aparelhos nos fascinam. O que antes era prerrogativa dos deuses, agora é nossa possibilidade. A tecnologia nos tornou deuses. Nos deu poderes que antes não tínhamos. Antes só deuses e pássaros podiam voar. Apenas os deuses deixavam a terra para habitar os confins dos céus. As invenções permitem que nós cheguemos aonde nenhum homem jamais foi. Nos permite atingir o infinitamente pequeno, assim como abarcar o imensamente grande, por enquanto apenas conseguindo dados… Só Deus sabe o que poderemos conseguir depois... Esse poder criativo confere poderes realmente celestiais às máquinas, sem os quais o homem ainda estaria confinado às cavernas, sua morada original. O centro da existência agora é o homem. Os deuses estão deixando de habitar ídolos para se encarnar nas invenções.
O homem não quer saber se está desvalorizando as próprias relações humanas. Permanece horas e horas contemplando e manipulando uma pequena “tabuinha” de metal e plástico, com a qual pode acessar outros humanos em qualquer outro lugar da Terra. O conhecimento se tornou disponível com um pequeno gesto. Um pequeno movimento pode comandar aparelhos, embora já haja estudos para possibilitar serem estes comandados por nossos próprios pensamentos. O sobrenatural está dando lugar à tecnologia, e esta a várias novas doenças psíquicas, como o vício em jogos, em smartphones, à Internet, por exemplo, sem falar nas psicossomaticas, ou nas doenças derivadas diretamente da debilitação do sistema imunológico.
No momento em que escrevo este texto, ele pode, a qualquer hora, ficar disponível para milhões de pessoas que quiserem ou puderem acessá-lo, bastando que digitem algumas palavras em um buscador. Compras podem ser feitas em outros países sem que saiamos do lugar. O banco pode ser acessado até mesmo à noite, fora do expediente, tornando possível que transfiramos valores ao outro lado do mundo! Podemos transmitir nossa imagem e voz instantaneamente ao outro, o que era obra de ficção científica há algum tempo.
Estamos nos tornando cada vez mais nossos próprios deuses, transferindo o sagrado para a tecnologia. Mas… a serviço de que? Qual a finalidade disso? O que fazemos com isso? São questões que não podemos deixar de tentar responder, pois corremos o risco de oprimir o outro, como já ocorreu por tantas vezes na humanidade. Tragédias ocorreram por conta desse poder criativo do homem, pela não atenção aos valores sentimentais. Não conseguimos pensar em mais nada a não ser no que nos compele a fazer, fazer e fazer, sem animação, sem senso crítico. Não usemos nossos sentimentos e nos tornaremos máquinas. 






REFERÊNCIAS

JUNG, Carl Gustav. Seminários sobre análise de sonhos. Petrópolis: Vozes, 2014.